Uma linda homenagem a um escritor que, há pouco, completou 70 anos. Um homem que passou a vida se dedicando à literatura, teve um grande problema de saúde há cerca de sete anos, mas que não deixou o ofício de lado. Emocionado, o sertanejo Raimundo Carrero acompanhou cada homenagem – em forma de teatro, música e prosa – neste segundo dia do Festival RioMar de Literatura. O evento gratuito realizado pelo RioMar Recife com apoio da Academia Pernambucana de Letras (APL) aconteceu nessa terça e quarta-feira (17 e 18).

As mulheres da obra de Luzilá Gonçalves no primeiro dia do Festival de Literatura

Mais da metade dos 70 anos de vida de Carrero tem sido retratada nas páginas de seus 14 romances, dois livros de não ficção e diversos contos. Alguns deles autobiográficos como O senhor Agora Vai Mudar de Corpo. Além de escrever, Carrero tem outra missão, tão nobre quanto. É precursor de oficinas de criação literária, tendo sido mestre de muitos escritores contemporâneos.

A aula de hoje (sim, uma verdadeira aula sobre a importante obra do escritor) começou com o painel Teatro e Literatura, mediado pelos especialistas Álcio Lins e Luís Reis. Durante sua explanação, Luiz levou os dois homenageados do festival – além de Raimundo, a escritora Luzilá Gonçalves também foi homenageada – a recitar, juntos, trecho de um dos livros de Luzilá. A ideia era mostrar a diferença de um texto dramatizado. “A dramaturgia é a passagem da literatura para o palco. É a construção de sentidos para o palco”, explicou Luiz.


Depois, foi a vez do grupo Dispersos Cia de Teatro dramatizar o texto “A menina morta”, de Carrero. Uma plateia silenciosa acompanhou cada detalhe da encenação. O texto fala do sentimento do personagem – ou da falta dele – ao descobrir o corpo de uma menina desfalecida na beira do rio. “A única coisa de que me lembro assim num repente é da menina nas água”, escreveu Carrero em um dos trechos. A partir de então, o personagem trava uma luta com a falta de emoção diante daquele corpo miúdo.

Coube à professora da Univeridade Federal de Pernambuco (UFPE) Flávia Suassuna falar sobre a obra do homenageado, ao lado de Carrero e de Luzilá. “Como estou nervosa! Muito difícil falar da importância de sua obra estando, assim, na sua frente”, confessou a docente acostumada a dar aulas para auditórios lotados de jovens. Flávia tocou, sobretudo, no regionalismo da literatura de Carrero.

Belíssima a homenagem do grupo Dispersos, que musicou o livro O senhor dos sonhos.  A história fala da miséria e solidariedade humana. O autor pernambucano não segurou as lágrimas de tanta emoção.

Para fechar a noite, o cantador Santanna subiu ao palco para contar e cantar o forró pé-de-serra de Gonzagão. No repertório, músicas como Asa Branca, Tamborete de Forró e Ana Maria, com o auditório cantando junto.

A literatura para os jovens

Uma das missões do festival, que está em sua 6ª edição, é levar a literatura para os jovens. Todos os anos, alunos de escolas públicas e do Instituto João Carlos Paes Mendonça participam do evento como ouvintes. Alunos como Pedro Vitor Cavalcanti, de 20 anos, que está cursando o pré-vestibular.

“Quando comecei a fazer o cursinho foi que abriu o leque para a literatura. Gosto de livros informativos, que me faça viajar, conhecer outras realidades”, disse ele, que está indeciso entre engenharia e arquitetura.

Pedro lista entre seus preferidos o livro Do cativeiro para a liberdade. Gostou tanto que repetiu a leitura. “É um livro voltado para jovens e relata coisas do cotidiano que nos aprisiona. As reflexões nos levam a sair dessa prisão”, revelou.

Exposição de grandes escritores

Durante o Festival de Literatura, o público conferiu uma exposição no foyer do teatro de escritores ilustrados pelo cartunista Miguel Falcão. Havia nomes como Machado de Assis, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Meto e Osman Lins, além dos homenageados Luzilá Gonçalves e Raimundo Carrero e a presidente da Academia Pernambucana de Letras, Margarida Cantarelli. Além das obras impressas, as caricaturas eram projetadas no palco.

Pernambucano de Timbaúba, Miguel é cartunista, ilustrador, quadrinista, caricaturista e chargista. Desde 1989, seus traços ilustram as charges do Jornal do Commercio.