Por Cinthya Leite*
Especial para o Viva RioMar 

Não foram poucas as vezes em que escutei: “como o seu filho é uma criança feliz”. Em algumas dessas ocasiões, o meu marido estava ao meu lado e dividia comigo a percepção dele em relação a essa impressão das pessoas sobre o nosso pequeno. “Ele é feliz porque somos felizes”, repete sempre o meu companheiro, de mais de uma década, para explicar o que leva uma criança, hoje com 4 anos, a esbanjar sorrisos e gargalhadas que derretem qualquer coração. Não preciso pensar muito, tampouco ir em busca de explicações da ciência, para ter a certeza de que a declaração do meu marido tem fundamento. Afinal, as crianças têm um dom de ‘pegar tudo no ar’. Quem nunca ouviu algo do tipo? Pois é, do mesmo jeito que elas captam qualquer informação que nós, adultos, deixamos escapar, elas também se sentem tocadas pelos nossos sentimentos – principalmente as nossas emoções enquanto mães.

Todo esse enredo já começa na gestação, uma fase em que vivenciamos um turbilhão de sensações (prazerosas e desagradáveis) e, exatamente por isso, ouvimos o obstetra (a mãe, a sogra, a amiga, a vizinha e quem quer que seja) dizer que devemos cuidar de todas as sensações que nos rodeiam porque o bebê, sendo gerado no útero, sente tudo. Acredito nisso piamente, com a mesma intensidade de apostar todas as fichas na premissa de que, para sermos felizes (e contagiar nossos filhos com esse sentimento), não precisamos de muito. Aliás, precisamos de quase nada.

Às vezes, necessitamos apenas parar e organizar o nosso tempo para sentar com eles à mesa durante o café da manhã, leva-los à escola e, se possível, buscá-los. Aqui eu peço permissão para abrir um parêntese e contar novamente um pouco da minha experiência. Pode soar como um paradoxo, mas passei a ter tempo de buscar o meu pequeno na escola (e, em alguns dias, até tirar um cochilo depois do almoço com ele) justamente numa fase em que a minha vida ganhou novas responsabilidades: mais trabalho e uma pilha de coisas para estudar no doutorado. E como numa espécie de círculo virtuoso (situação em que os acontecimentos positivos se repetem como se estivessem em um círculo), passei a cuidar mais de mim, a prestar atenção nos sentimentos da família e a também pedir ajuda quando tudo parece convergir para colocar a felicidade por água abaixo. Mas apenas parece e não concretiza, pois a estrutura emocional raramente sai do tom quando estamos realmente felizes. E é na simplicidade da rotina que podemos ter um papel de influenciadoras na felicidade dos nossos filhos. Ou seja, compartilhar os momentos do dia a dia, colocar em prática aquela brincadeira que só mãe e filho entendem, fazer cócegas e colocar os pequenos para dormir são apenas algumas situações que fazem o colo materno ser uma espécie de remédio para a felicidade mútua, de mãe e filho.

Certa vez, ouvi do psiquiatra e psicoterapeuta Amaury Cantilino, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que “na vida de qualquer pessoa, independentemente da idade em que ela esteja, nada será tão alentador quanto a voz e o amparo da sua mãe”. Esse foi um trecho do discurso que ele fez como paraninfo de uma turma de medicina formada em 2016. Tomei a permissão, a partir desse momento em que ouvi as palavras do psiquiatra, de ir além do imaginário popular para refletir como o colo de filho também é remédio – e daqueles que a gente não precisa de receita para tê-lo na farmacinha de casa e que não provoca efeitos colaterais. Do mesmo jeito que a mãe tem o dom e o poder de suavizar as angústias e, muitas vezes, aliviar o que a criança (e o adulto) sente.

Do outro lado, praticamente todas as mães já chegaram em casa depois de um dia turbulento no trabalho, olharam para a prole e imediatamente os aborrecimentos foram embora para dar espaço à alegria. Foi também com Amaury que aprendi como essa cadeia de felicidade criada entre mãe e filho vem desde a gestação e, após o parto, o elo é fortalecido graças à ocitocina, o mesmo neuro-hormônio que estimula a saída do leite materno. “No cérebro, a ocitocina provoca um efeito de aumentar o apego. E esse vínculo vai persistindo, deixa marcas e perdura ao longo da vida. Essa é a vantagem da mãe em relação a qualquer outra pessoa”, explicou o médico enquanto eu demonstrava inquietações para entender a explicação da ciência sobre a magia por trás das descobertas deliciosas da ‘maternagem’, uma palavrinha ligada ao campo do afeto, do cuidado, da presença e do envolvimento emocional – é aí onde está a essência da felicidade que passamos a experimentar quando nos tornamos mãe.

É por isso que, se uma mãe é feliz, os filhos têm uma chance imensa de reproduzir a satisfação com a vida. Isso faz explodir, nos lares, a Felicidade Interna Bruta (FIB) ou Gross National Happiness (GNH) – um conceito de desenvolvimento social criado em contrapartida ao Produto Interno Bruto (PIB). O termo foi criado pelo rei do Butão (Ásia) Jigme Singye Wangchuck, em 1972, em resposta a críticas que afirmavam que a economia do país crescia miseravelmente. Essa criação assinalou o seu compromisso de construir uma economia baseada nos valores espirituais budistas. Essa seria uma pista para fechar em alta a fórmula da FIB? Nem um pouco. A equação não é bem assim.

Estamos falando de um sentimento tão subjetivo que devemos passar longe de regras. Um outro psiquiatra e psicoterapeuta, Leonardo Machado, também professor da UFPE, já diz que “o fundamental não é encontrar a felicidade propriamente dita. O essencial é encontrar sentido de vida”. E isso é possível quando nós, mães, percebemos que não vale valorizar insegurança, sentimento materno de culpa (quem nunca teve?) nem mesmo os julgamentos alheios. Importa, sim, respirar (e estimular nos nossos filhos) emoções positivas, através do otimismo, da apreciação, da satisfação e da gratidão. É assim que vamos aprendendo diariamente que a maternagem faz da gente mulheres mais fortes e felizes. É uma felicidade tão natural que contagia os filhos e a família inteira. E assim, abrimos espaço para um amor (ah, sempre o amor…) que nos transforma e nos vira literalmente pelo avesso.

Que este mês das mães nos traga inspiração para maternarmos da forma mais linda possível para que, a cada dia, possamos passear com os nossos filhos por um caminho lindo de autoconhecimento, encantamento e felicidade.

*Cinthya Leite é repórter do Jornal do Commercio e editora do blog Casa Saudável