Por Jussara de Paula*

Mãos, mar, redes, alimentos, sabores, sonhos. Essa representatividade vem de uma população forte e resistente, mas que ao mesmo tempo são umas das principais impactadas pelas ações humanas. Estamos falando de pessoas de vida simples e modesta, de sorriso fácil e tímido, com histórias de vida de muito trabalho, mas também de conquistas.

São pescadores, marisqueiras e catadores de caranguejos, homens e mulheres que saem diariamente, muitas vezes antes do nascer do sol, atravessando léguas, areais, profundezas da lama e no movimento das marés em busca de peixes, moluscos e outras diversidades neste ecossistema composto de mosaicos de sabores e diversidades de produtos tiram dos manguezais o sustento de suas famílias, praticando o ofício passado de geração a geração.

Considerados conhecedores das marés são os pescadores que no balanço das águas exercem pela observação a espera da melhor hora e lua para coleta dos produtos do mar. Essa atividade representa cerca de 50% de toda produção pesqueira no País.

O bem que o meio ambiente faz: a fauna dos manguezais

O trabalho das marisqueiras é realizado em três etapas: a primeira consiste na ida aos manguezais em busca do melhor marisco; a segunda fase é quando elas começam o trabalho de beneficiamento dos mariscos, a partir do que foi catado de caranguejos, siris e aratus. Por fim há o processo com a lavagem dos produtos, embalagem, pesagem, refrigeração e comercialização, geralmente para cabanas de praia, bares, restaurantes e clientes.

O bem que o meio ambiente faz: conhecendo os manguezais

Já os catadores de caranguejo, que entram no mangue na vazante (maré baixa), quando as tocas ficam descobertas chegam a passar de 4 a 6 horas, atrás desse crustáceo, em função do regime das marés. Durante a “cata”, eles precisam enfrentar outro desafio: vencer os enxames de pernilongos, maruins, borrachudos e mutucas, insetos típicos deste ambiente. Além disso, existe o máximo de cuidado com as raízes dos manguezais, onde se incrustam ostras, que com frequência, tocam suas mãos, braços e pernas.

Eles são também os vigilantes deste ecossistema que numa teia sistêmica se unem para lutar e manter o berçário natural das espécies marinhas. Seja contra a ausência de entendimento da importância deste local ou ações de impacto que afetam este delicado e muitas vezes incompreendido biossistema, todos os dias mostram-se representantes vivos da resiliência humana frente a um cenário de tantas adversidades. São pessoas que dependem do meio ambiente para a sua sobrevivência e que por sua constante e intensa interação, respeitam os seus ciclos naturais.

*Jussara de Paula é analista de meio ambiente do RioMar Recife.